![]() |
| OPINION |
A ERA DA DESIGUALDADE
Lester Thurow
Ninguém se torna rico economizando dinheiro.
Economizar pode garantir uma velhice estável, mas não produz fortuna. Na história da
humanidade, a riqueza sempre esteve associada ao domínio dos recursos naturais, como
ouro, terra ou petróleo, mas hoje o que vale é o conhecimento. Bill Gates não tem
nenhum desses recursos e hoje é uma das pessoas com maior capacidade para produzir
riqueza em todo o mundo.
As novas regras que regem este mundo, o da chamada
3.ª Revolução Industrial, estão criando nos EUA muito mais bilionários, nos últimos
15 anos, que em todos os tempos. Para se estar entre os 50 mais ricos do País, em 1998
era preciso ter no mínimo US$ 2,9 bilhões. Sinal desses novos tempos é que, naquele
ano, enquanto o consumo geral do País cresceu 29%, itens caros como as pérolas tiveram
aumento de 73% no consumo e a venda de iates evoluiu 143%.
Nos anos 50, 60 e 70, a economia americana avançou
duas vezes mais rápido que no período entre 70 e o final dos anos 90. Entretanto, o
número de milionários não explodiu naquela fase, como aconteceu nos últimos tempos. O
que explicaria essa diferença?
Na verdade, o momento atual só teve paralelo na
última década do século 19, quando surgiram os primeiros laboratórios de pesquisa
dentro de corporações, como no caso das indústrias químicas da Alemanha. Isto permitiu
que os avanços tecnológicos se tornassem sistemáticos. Paralelamente, a eletrificação
alterou todo o processo produtivo, ampliou os horários de funcionamento das fábricas,
criou indústrias e aumentou significativamente a produtividade. Este conjunto de fatores
fez surgir os primeiros milionários. Pessoas que aproveitaram essas condições e
investiram em negócios novos e mercados inexplorados.
Uma assertiva válida naqueles tempos e também na
nova economia é que a verdadeira riqueza está em produzir mais, com menos. Mas também
vem dos investimentos em fábricas e equipamentos, para obter mais, a partir dos mesmos
recursos de capital, ou utilizar menos capital para gerar os mesmos níveis de riqueza.
Um dos grandes problemas da atual Era do
Conhecimento é o desequilíbrio resultante da concentração de oportunidades. Na década
de 50, um operário evoluía dentro de um plano de carreira e, aos 30 e poucos anos, sabia
que poderia ganhar um salário digno. Hoje, nem mesmo uma pessoa com diploma de nível
superior tem esta certeza.
Na segunda metade dos anos 90, as empresas
americanas demitiram mais de meio milhão de trabalhadores, apesar do boom vivido pela
economia no mesmo período. Além disso, os 20% mais bem remunerados entre os
trabalhadores estão ganhando cada vez mais que os outros, concentrando ainda mais a
riqueza.
Manter o emprego é o maior desafio e, com grande
freqüência, funcionários estão abrindo mão de direitos trabalhistas e aumentos de
salários, em troca da permanência no trabalho. Paradoxalmente, quando os teóricos
começavam a acreditar que as empresas iriam criar formas de relacionamento mais próximas
com seus empregados - muitas vezes apresentados como "colaboradores" ou como
"a principal vantagem competitiva" - as empresas estão demitindo sem pensar
duas vezes aqueles trabalhadores da Era do Conhecimento que não sejam mais necessários
ou cujas habilidades, antes tidas como fundamentais, tornam-se obsoletas.
Para agravar ainda mais este quadro, as empresas
estão investindo cada vez menos em treinamento para seus funcionários, pois sabem que,
em pouco tempo, só alguns permanecerão. De seu lado, os trabalhadores também percebem
que logo poderão ser demitidos e vivem à procura de novas oportunidades, reduzindo
bastante o número de empregados verdadeiramente comprometidos com o sucesso das empresas
em que trabalham.
Este é um fenômeno mundial. Os países têm
procurado amenizar os prejuízos humanos e financeiros causados por esta nova lógica
econômica criando impostos sobre o faturamento para empresas que não investem no
treinamento dos funcionários. Em contrapartida, aquelas que gastam em treinamento podem
abater este investimento do valor que seria recolhido aos cofres públicos.
Esta tem sido uma forma inteligente de impedir que
o empresariado acabe pegando carona nos investimentos individuais que cada trabalhador tem
de fazer para manter-se atualizado em sua carreira e continuar tendo espaço no mercado de
trabalho.
Toda essa situação, no fundo, é um reflexo do
ambiente macroeconômico. Os governos sempre atuaram, de uma forma ou de outra, para
controlar as desigualdades. Entretanto, na nova economia, as nações perderam o poder e
não controlam mais o sistema. Os governos nacionais estão sendo lentamente expulsos dos
negócios. Não influenciam tanto o fluxo de capitais e informações. Ainda têm
exércitos, mas temem usá-los, com a guerra sendo transmitidas pela TV.
Cada vez mais, as organizações globais ocupam
este espaço de domínio e cresce sua possibilidade de migrar para regiões do planeta
onde as condições lhes sejam mais favoráveis e até mesmo de jogar governos uns contra
os outros, simplesmente para atrair investimentos dessas corporações. Na 3.ª
Revolução Industrial, a tecnologia criou uma economia global, um sistema não
administrável, do qual a crise asiática de 1997 foi apenas um sinal.
Pelo menos por algum tempo, ainda vamos viver em um
mundo de grandes desigualdades, em escala global. As oportunidades hoje são muitas para
os novos negócios. Mas, para cada história de sucesso ou novo bilionário, há dúzias
de pessoas e empresas quebrando silenciosamente.
Publicado originalmente en el períodico Estado Sao Paulo, 22 Octubre 2001