OPINION

   

ESTADOS UNIDOS POLARIZADO

Paul Krugman

Estudo sugere que a polarizaçao politica nos EUA nasce dos aumento da desigualdade econômica no país

 

Quando o Congresso voltar a Washington, as batalhas vão reiniciar-se - e cada partido acusará o outro de ser faccioso. Por que eles simplesmente não podem se entender? Porque há questões fundamentais em jogo, e os partidos estão tão distantes um do outro, a respeito dessas questões, como sempre estiveram.

Um artigo publicado recentemente na Slate levou-me a Keith Poole e Howard Rosenthal, cientistas políticos que usam informações sobre as votações realizadas no Congresso para criar "mapas" das posições ideológicas dos políticos. Eles descobriram que o voto de um deputado pode ser previsto, quase com precisão, pela sua posição em duas dimensões: uma correspondente a questões raciais e a outra à escala econômica esquerda versus direita, refletindo questões como alíquotas marginais de impostos e a generosidade dos benefícios concedidos aos pobres.

Ademais, eles descobriram - o que não é muito surpreedente - que o centro não se mantém. Ralph Nader pode escarnecer dos "republicratas", mas os democratas e republicanos divergiam profundamente, desde a década de 80, e agora estão ainda mais distantes uns dos outros, no tocante às questões econômicas, do que sempre estiveram, desde o início do século 20.

Qual das duas partes mudou de posição? Tom Dashle não aparenta ser muito mais liberal do que, por exemplo, o falecido Tip O'Neil. Por outro lado, Tom DeLay, que em breve será o líder da maioria na Câmara, está claramente à direita dos líderes republicanos anteriores.

Em resumo, observações casuais indicam que a política americana tornou-se polarizada porque os republicanos oscilaram para a direita e os democratas não os acompanharam. E, com toda a certeza, os números apresentados por Poole-Rosenthal que mostram uma divergência entre os partidos também mostram que essa divergência reflete um movimento dos republicanos na direção de políticas econômicas mais conservadoras, ao passo que os democratas permaneceram mais ou menos na mesma posição em que estavam. Como pessoas como James Jeffords e Lincoln Chafee descobriram, tornou-se muito difícil ser o que costumávamos chamar de republicano moderado.

Mas por que os republicanos oscilaram para a direita? Poderia ser uma questão de pura convicção intelectual. Os republicanos compreenderam que impostos baixos e governo pequeno são bons para todos, e os democratas simplesmente não vêem isso. Mas as idéias tendem a arraigar-se quando o solo foi fertilizado por tendências econômicas e sociais. Poole sugere que a fonte mais provável de polarização política é a polarização econômica: a desigualdade de renda e riqueza que está aumentando extraordinariamente.

Sei, por experiência, que a simples menção à distribuição de renda provoca acusações indignadas de "guerra de classes", mas, de qualquer forma, aí está o que um Escritório do Orçamento do Congresso (realmente) apartidário descobriu recentemente: ajustada de acordo com a inflação, a renda de famílias situadas no meio da distribuição de renda dos Estados Unidos aumentou de US$ 41.400 em 1979 para 45.100 em 1997, com aumento de 9%. Nesse ínterim, a renda das famílias que fazem parte do 1% que está no topo aumentou de US$ 420.200 para US$ 1,016 milhão, com crescimento de 140%. Ou, em outras palavras, a renda das famílias pertencentes ao 1% que está no topo equivaleu a 10 vezes a renda das famílias típicas em 1979; a 23 vezes em 1997; e continuou a aumentar.

Seria de fato surpreendente se essas mudanças tectônicas do panorama econômico não estivessem refletidas na política. Seria de se esperar que a concentração da renda no topo provocasse exigências populistas de que os ricos fossem escorchados. Mas, como eu disse, tanto a observação casual como as estatísticas Poole-Rosenthal nos dizem que os democratas não oscilaram para a esquerda - os republicanos moveram-se para a direita. De fato, os republicanos oscilaram tanto para a direita que os eleitores comuns têm dificuldades para assimilar isso. Como ressaltei em uma coluna anterior, os grupos focalizados em pesquisas literalmente recusaram-se a acreditar nas descrições minuciosas da lei de estímulo que os líderes republicanos da Câmara aprovaram em uma votação da linha do partido, em outubro.

Por que a reação à desigualdade crescente induziu à redução dos impostos cobrados dos ricos? Boa pergunta. Não é uma simples questão de pessoas ricas votando a seu próprio favor: elas simplesmente não são em número suficiente para isso. Para compreender as tendências políticas nos Estados Unidos provavelmente precisaremos pensar em financiamento de campanhas, nas atividades lobistas e no poder do dinheiro em geral para dar forma ao debate político.

De qualquer forma, a moral dessa história é que as batalhas políticas que estão sendo travadas em Washington, no momento, não são rusgas insignificantes. A direita está na ofensiva; a esquerda - ocupando a posição antes conhecida como centro - quer manter a linha. Muitos comentaristas ainda se iludem com a idéia confortadora de que todo esse partidarismo é uma aberração temporária. Lamento, minha gente: não será assim em futuro próximo. Vão se acostumando.

 

Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton; publicado no Estado Sao Paulo, 5 janeiro 2002, basado en The New York Times.  

 

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