ENTREVISTAS

 

GLOBALIZACAO NAO E UM JOGO INOCENTE

  

Entrevista com Nicholas Stern

  

  
Globalização não é um jogo inocente. Os países só devem abrir suas economias nos setores em que sabem que são competitivos. A opinião não é de um militante antiglobalização, mas do economista-chefe do Bird (Banco Mundial), Nicholas Stern. Desde julho de 2000, Stern ocupa o cargo que pertencia ao economista Joseph Stiglitz, que se notabilizou por atacar duramente o receituário liberalizante do FMI e do Banco Mundial.

Diferentemente de Stiglitz, Stern diz haver indícios confiáveis de que que, se a globalização não é uma receita imediata para dar fim à pobreza em todos os lugares, ela certamente a reduz nas economias comercialmente integradas. Stern até sugere ao Brasil que não use o protecionismo de países ricos como pretexto para protelar a redução de suas próprias barreiras comerciais.

No entanto, em entrevista à Folha, o economista-chefe do Bird reconhece que a derrubada de barreiras não deve ser feita de forma ingênua. "O Brasil e outros países em desenvolvimento devem procurar abrir suas economias naquilo que lhes for vantajoso comercialmente. Um bom exemplo é o da Índia, que derrubou barreiras em setores específicos quando concluiu que elas já não eram benéficas. Não acho que seja ingênuo derrubar barreiras de maneira seletiva." Stern chegou ao Brasil para divulgar o relatório "Globalização, Crescimento e Pobreza", um compêndio de números que indicam os benefícios da integração comercial na redução de pobreza e na globalização.  

 

Folha- O debate sobre os benefícios econômicos da globalização sempre foi confuso e polêmico. Na semana passada, talvez tenha ficado ainda mais confuso quando o sr. divulgou o seu relatório sobre o tema, classificando a Índia e a China como "nações mais globalizadas", e usando os dois países como exemplos. Índia e China aderiram à globalização ou resistem a ela?

Nicholas Stern- A raiz dessa confusão é encontrar uma definição para globalização. Embora a minha definição seja ampla - ela envolve integração de capitais, de pessoas e integração comercial e cultural- , decidi medir apenas a integração comercial dos países e o impacto dessa integração no crescimento e na redução da pobreza. Acho que esse é o único critério "limpo". Não quis julgar nem avaliar outras políticas ou os instrumentos que os países usaram para elevar o comércio.

Folha- Não teria sido mais honesto intitular o relatório "Exportações, Crescimento e Pobreza", sem a palavra globalização?

Stern- Na realidade, eu preferiria a palavra integração, ou integração comercial.

Folha- O relatório dá a impressão de que Brasil, Argentina, China e Índia adotaram o mesmo caminho e que todos eles beneficiaram-se da globalização. Mas Índia e China mantêm controles de capital, usam mão-de-obra barata para exportar e resistem às regras de propriedade intelectual. Brasil e Argentina fizeram o oposto. A Argentina está virtualmente quebrada, e o Brasil esforça-se para dizer que não é a Argentina.

Nicholas Stern- Não estou dizendo que Índia e China não têm barreiras, mas que, quando se abriram mais para o mundo nos últimos 50 anos, foram beneficiadas. Houve mudanças positivas nos índices de crescimento e de pobreza desses países depois de iniciarem uma integração comercial.

Folha- O sr. não concorda que os países tomaram decisões e caminhos diferentes em direção à abertura? E que exportar mais não significa necessariamente integrar-se à economia mundial?

Stern- Os países tomaram rotas diferentes. A rota escolhida pelo México está associada com geografia, com sua proximidade dos EUA. A China abriu mais suas portas para os investimentos diretos estrangeiros do que a Índia. Ainda assim, a Índia abriu suas fronteiras para produtos importados na última década. No entanto, não há dúvidas de que China e Índia cresceram quando se integraram comercialmente. E, por serem países grandes, estão conseguindo proteger-se mais da recessão mundial.

Folha- O sr. declarou que o Brasil não deve usar o protecionismo dos países industrializados para adotar suas próprias medidas protecionistas e protelar a abertura comercial. Não seria ingênuo sugerir que o Brasil abra sua economia sem esperar retribuição dos países industrializados?

Stern- Não é ingênuo. O Brasil e outros países em desenvolvimento devem abrir suas economias naquilo que lhes for vantajoso comercialmente. É o caso da Índia, que derrubou as barreiras quando concluiu que elas já não mais eram benéficas. A decisão foi tomada pelos indianos, não por outros países. Não é ingênuo derrubar barreiras de maneira seletiva.

Folha- Então o sr. defende uma globalização pragmática?

Stern- Sim.

Folha- O sr. afirma que os países emergentes ganharam quando aumentaram os produtos industrializados na pauta de suas exportações. No entanto, o próprio Bird colocou recentemente dúvidas sobre se o Brasil deveria insistir em fabricar aviões ou se daria melhor ao aproveitar bem seus recursos naturais. Não há uma contradição no que o sr. diz e o que o Bird defende?

Stern- Não. Está claro que os países ganham quando conseguem competir na produção de bens manufaturados. Isso não significa que é legítimo e válido dar apoio especial a setores ou companhias específicas. São dois assuntos diferentes.

Folha- O sr. é contrário à integração de capitais?

Stern- Acho que os controles de capitais devem ser relaxados na mesma velocidade do fortalecimento das instituições financeiras. Os países que decidirem instituir controles de capital não devem prejudicar os investimentos diretos.

 

Entrevista publicada en Folha de Sao Paulo, Diciembre 2001.  

 

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