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| ENTREVISTAS |
GLOBALIZACAO NAO E UM JOGO INOCENTE
Entrevista
com Nicholas Stern
Globalização não é um jogo inocente. Os países só devem abrir suas
economias nos setores em que sabem que são competitivos. A opinião não é de
um militante antiglobalização, mas do economista-chefe do Bird (Banco
Mundial), Nicholas Stern.
Diferentemente de Stiglitz, Stern diz haver indícios confiáveis de que que,
se a globalização não é uma receita imediata para dar fim à pobreza em
todos os lugares, ela certamente a reduz nas economias comercialmente
integradas.
No entanto, em entrevista à Folha, o economista-chefe do Bird reconhece que
a derrubada de barreiras não deve ser feita de forma ingênua. "O Brasil e
outros países em desenvolvimento devem procurar abrir suas economias naquilo
que lhes for vantajoso comercialmente. Um bom exemplo é o da Índia, que
derrubou barreiras em setores específicos quando concluiu que elas já não
eram benéficas. Não acho que seja ingênuo derrubar barreiras de maneira
seletiva."
Folha- O debate sobre os benefícios econômicos da globalização sempre foi
confuso e polêmico. Na semana passada, talvez tenha ficado ainda mais confuso
quando o sr. divulgou o seu relatório sobre o tema, classificando a Índia e a
China como "nações mais globalizadas", e usando os dois países como
exemplos. Índia e China aderiram à globalização ou resistem a ela?
Nicholas Stern- A raiz dessa confusão é encontrar uma definição para
globalização. Embora a minha definição seja ampla - ela envolve integração
de capitais, de pessoas e integração comercial e cultural- , decidi medir
apenas a integração comercial dos países e o impacto dessa integração no
crescimento e na redução da pobreza. Acho que esse é o único critério
"limpo". Não quis julgar nem avaliar outras políticas ou os
instrumentos que os países usaram para elevar o comércio.
Folha- Não teria sido mais honesto intitular o relatório "Exportações,
Crescimento e Pobreza", sem a palavra globalização?
Stern- Na realidade, eu preferiria a palavra integração, ou integração
comercial.
Folha- O relatório dá a impressão de que Brasil, Argentina, China e Índia
adotaram o mesmo caminho e que todos eles beneficiaram-se da globalização. Mas
Índia e China mantêm controles de capital, usam mão-de-obra barata para
exportar e resistem às regras de propriedade intelectual. Brasil e Argentina
fizeram o oposto. A Argentina está virtualmente quebrada, e o Brasil esforça-se
para dizer que não é a Argentina.
Nicholas Stern- Não estou dizendo que Índia e China não têm barreiras,
mas que, quando se abriram mais para o mundo nos últimos 50 anos, foram
beneficiadas. Houve mudanças positivas nos índices de crescimento e de pobreza
desses países depois de iniciarem uma integração comercial.
Folha- O sr. não concorda que os países tomaram decisões e caminhos
diferentes em direção à abertura? E que exportar mais não significa
necessariamente integrar-se à economia mundial?
Stern- Os países tomaram rotas diferentes. A rota escolhida pelo México está
associada com geografia, com sua proximidade dos EUA. A China abriu mais suas
portas para os investimentos diretos estrangeiros do que a Índia. Ainda assim,
a Índia abriu suas fronteiras para produtos importados na última década. No
entanto, não há dúvidas de que China e Índia cresceram quando se integraram
comercialmente. E, por serem países grandes, estão conseguindo proteger-se
mais da recessão mundial.
Folha- O sr. declarou que o Brasil não deve usar o protecionismo dos países
industrializados para adotar suas próprias medidas protecionistas e protelar a
abertura comercial. Não seria ingênuo sugerir que o Brasil abra sua economia
sem esperar retribuição dos países industrializados?
Stern- Não é ingênuo. O Brasil e outros países em desenvolvimento devem
abrir suas economias naquilo que lhes for vantajoso comercialmente. É o caso da
Índia, que derrubou as barreiras quando concluiu que elas já não mais eram
benéficas. A decisão foi tomada pelos indianos, não por outros países. Não
é ingênuo derrubar barreiras de maneira seletiva.
Folha- Então o sr. defende uma globalização pragmática?
Stern- Sim.
Folha- O sr. afirma que os países emergentes ganharam quando aumentaram os
produtos industrializados na pauta de suas exportações. No entanto, o próprio
Bird colocou recentemente dúvidas sobre se o Brasil deveria insistir em
fabricar aviões ou se daria melhor ao aproveitar bem seus recursos naturais. Não
há uma contradição no que o sr. diz e o que o Bird defende?
Stern- Não. Está claro que os países ganham quando conseguem competir na
produção de bens manufaturados. Isso não significa que é legítimo e válido
dar apoio especial a setores ou companhias específicas. São dois assuntos
diferentes.
Folha- O sr. é contrário à integração de capitais?
Stern- Acho que os controles de capitais devem ser
relaxados na mesma velocidade do fortalecimento das instituições financeiras.
Os países que decidirem instituir controles de capital não devem prejudicar os
investimentos diretos.
Entrevista publicada en Folha de Sao Paulo, Diciembre 2001.